"A essa altura, atingíramos uma praça de
maravilhosos contornos, ostentando extensos jardins.
No centro da praça, erguia-se um palácio de
magnificente beleza, encabeçado de torres soberanas,
que se perdiam no céu..."
"Decorridas algumas semanas
de tratamento ativo, saí, pela primeira vez, em
companhia de Lísias.
Impressionou-me o espetáculo das ruas. Vastas
avenidas, enfeitadas de árvores frondosas. Ar puro,
atmosfera de profunda tranqüilidade espiritual. Não
havia, porém, qualquer sinal de inércia ou de
ociosidade, porque as vias públicas estavam
repletas. Entidades numerosas iam e vinham. Algumas
pareciam situar a mente em lugares distantes, mas
outras dirigiam-me olhares acolhedores. Incumbia-se o
companheiro de orientar-me em face das surpresas que
surgiam ininterruptas. Percebendo-me as íntimas
conjeturas, esclareceu solícito:
- Estamos no local do Ministério do Auxílio. Tudo o
que vemos, edifícios, casas residenciais, representa
instituições e abrigos adequados à tarefa de nossa
jurisdição. Orientadores, operários e outros
serviçais da missão residem aqui. Nesta zona,
atende-se a doentes, ouvem-se rogativas,
selecionam-se preces, preparam-se reencarnações
terrenas, organizam-se turmas de socorro aos
habitantes do Umbral, ou aos que choram na Terra,
estudam-se soluções para todos os processos que se
prendem ao sofrimento.
- Há, então, em "Nosso Lar", um
Ministério do Auxílio? - perguntei?
- Como não? Nossos serviços são distribuídos numa
organização que se aperfeiçoa dia a dia, sob a
orientação dos que nos presidem os destinos.
Fixando em mim os olhos muitos lúcidos, prosseguiu:
- Não tem visto, nos atos da prece, nosso Governador
Espiritual, cercado de setenta e dois colaboradores?
Pois são os Ministros de "Nosso Lar". A
colônia, que é essencialmente de trabalho e
realização, divide-se em seis Ministérios,
orientados, cada qual, por doze Ministros. Temos os
Ministérios da REGENERAÇÃO, do AUXÍLIO, da
COMUNICAÇÃO, do ESCLARECIMENTO, da ELEVAÇÃO e da
UNIÃO DIVINA. Os quatro primeiros nos aproximam das
esferas terrestres, os dois últimos nos ligam ao
plano superior, visto que a nossa cidade espiritual
é zona de transição. Os serviços mais grosseiros
localizam-se no ministério da Regeneração, os mais
sublime no da União Divina. Clarêncio, nosso chefe
amigo, é um dos Ministros do Auxílio.
Valendo-me da pausa natural, exclamei, comovido:
- Oh! nunca imaginei a possibilidade de
organizações tão completas, depois da morte do
corpo físico!...
- Sim - esclareceu Lísias -, o véu da ilusão é
muito denso nos círculos carnais. O homem vulgar
ignora que toda manifestação de ordem, no mundo,
procede do plano superior. A natureza agreste
transforma-se em jardim, quando orientada pela mente
do homem, e o pensamento humano, selvagem na criatura
primitiva, transforma-se em potencial criador, quando
inspirado pelas mentes que funcionam nas esferas mais
altas. Nenhuma organização útil se materializa na
crosta terrestre, sem que seus raios iniciais partam
de cima.
- Mas "Nosso Lar" terá igualmente uma
história, como as grandes cidades planetárias?
- Sem dúvida. Os planos vizinhos da esfera
terráquea possuem, igualmente, natureza específica.
"Nosso Lar" é antiga fundação de
portugueses distintos, desencarnados no Brasil, no
século XVI. A princípio, enorme e exaustiva foi a
luta, segundo consta em nossos arquivos no
Ministério do Esclarecimento. Há substâncias
ásperas nas zonas invisíveis à Terra, tal como nas
regiões que se caracterizam pela matéria grosseira.
Aqui também existem enormes extensões de potencial
inferior, como há, no planeta, grandes tratos de
natureza rude e incivilizada. Os trabalhos
primordiais foram desanimadores, mesmo para os
espíritos fortes. Onde se congregam hoje vibrações
delicadas e nobres, edifícios de fino lavor,
misturavam-se as notas primitivas dos silvículas do
país e as construções infantis de suas mentes
rudimentares. Os fundadores não desanimaram, porém.
Prosseguiram na obra, copiando o esforço dos
europeus que chegavam à esfera material, apenas com
a diferença de que, por lá, se empregava a
violência, a guerra, a escravidão, e, aqui, o
serviço perseverante, a solidariedade fraterna, o
amor espiritual.
A essa altura, atingíramos uma praça de
maravilhosos contornos, ostentando extensos jardins.
No centro da praça, erguia-se um palácio de
magnificente beleza, encabeçado de torres soberanas,
que se perdiam no céu.
- Os fundadores da Colônia começaram o esforço,
partindo daqui, onde se localiza a GOVERNADORIA -
disse o visitador.
Apontando o palácio, continuou:
- Temos, nesta praça, o ponto de convergência dos
seis ministérios a que me referi. Todos começam da
Governadoria, estendo-se em forma triangular.
E, respeitoso, comentou:
- Ali vive o nosso abnegado orientador. Nos trabalhos
administrativos, utiliza ele a colaboração de três
mil funcionários; entretanto, é ele o trabalhador
mais infatigável e o mais fiel que todos nós
reunidos. Os Ministros costumam excursionar noutras
esferas, renovando energias e valorizando
conhecimentos; nós outros gozamos entretenimentos
habituais, mas o Governador nunca dispõe de tempo
para isso. Faz questão que descansemos, obriga-nos a
férias periódicas, ao passo que, ele mesmo, quase
nunca repousa, mesmo no que concerne às horas de
sono. Parece-me que a glória dele é o serviço
perene. Basta lembrar que estou aqui há quarenta
anos e, com exceção das assembléias referentes às
preces coletivas, raramente o tenho visto em
festividades públicas. Se pensamento, porém,
abrange todos os círculos de serviço, sua
assistência carinhosa a tudo e a todos atinge.
Depois de longa pausa, o enfermeiro amigo acentuou:
- Não faz muito, comemorou-se o 114o. aniversários
da sua magnânima direção.
Calara-se Lísias, evidenciando comovida reverência,
enquanto eu a seu lado contemplava, respeitoso e
embevecido, as torres maravilhosas que pareciam
cindir o firmamento..."

(Do livro
"Nosso Lar", cap. 8, André Luiz/Chico
Xavier, FEB)
