"O
instinto sexual não é apenas agente de reprodução, entre as formas
superiores, mas,
acima de tudo, é o reconstituinte das forças
espirituais, pelo qual as criaturas encarnadas ou desencarnadas se
alimentam mutuamente, na permuta de raios psíquico-magnéticos
que lhes
são necessários ao progresso."
Há, por isso,
consórcios de infinita gradação no Plano Terrestre e no Plano
Espiritual, nos quais os elementos sutis de comunhão prevalecem acima
das linhas morfológicas do vaso físico, por se ajustarem ao sistema
psíquico, antes que às engrenagens da carne, em circuitos substanciais
de energia.
Contudo, até que o Espírito consiga purificar as próprias
impressões, além da ganga sensorial em que habitualmente se desregra
no narcisismo obcecante, valendo-se de outros seres para satisfazer a
volúpia de hipertrofiar-se psiquicamente no prazer de si mesmo,
numerosas reencarnações instrutivas e reparadoras se lhe debitam no
livro da vida, porque não cogita exclusivamente do próprio prazer sem
lesar os outros, e toda vez que lesa alguém abre nova conta resgatável
em tempo certo.
Isso ocorre porque o instinto sexual não é apenas agente de
reprodução, entre as formas superiores, mas, acima de tudo, é o
reconstituinte das forças espirituais, pelo qual as criaturas
encarnadas ou desencarnadas se alimentam mutuamente, na permuta de raios
psíquico-magnéticos que lhes são necessários ao progresso.
Os Espíritos santificados, em cuja natureza superevolvida o instinto
sexual se diviniza, estão relativamente unidos aos Espíritos
Glorificados, em que descobrem as representações de Deus que procuram,
recolhendo de semelhante entidades as cargas magnéticas sublimadas, por
eles próprios liberados no êxtase espiritual.
De outro lado, as almas primitivas comumente lhe gastam a força em
excessos que lhes impõem duras lições.
Entre os espíritos santificados e as almas primitivas, milhões de
criaturas conscientes, viajando da rude animalidade para a Humanidade
enobrecida, em muitas ocasiões se arrojam a experiências menos dignas,
privando a companheira ou o companheiro do alimento psíquico a que nos
reportamos, interrompendo a comunhão sexual que lhes alentava a
euforia, e, se as forças sexuais não se encontram suficientemente
controladas por valores morais nas vítimas, surgem, freqüentemente,
longos processos de desespero ou de delinqüência.
(Do livro Evolução em
Dois Mundos, XVIII, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)
AMOR, ALIMENTO DAS ALMAS
- Terminada a oração, chamou-nos à mesa a dona da casa, servindo caldo reconfortante e frutas perfumadas, que mais pareciam concentrados
de fluidos deliciosos. Eminentemente surpreendido, ouvi a senhora Laura observar com graça:
- Afinal, nossas refeições aqui são muito mais agradáveis que na Terra. Há residências, em "Nosso Lar", que as dispensam quase por
completo; mas, nas zonas do Ministério do Auxílio, não podemos prescindir
dos concentrados fluídicos, tendo em vista os serviços pesados que as
circunstâncias impõem. Despendemos grande quantidade de energias. É necessário renovar provisões de força.
- Isso, porém - ponderou uma das jovens -, não quer dizer que somente nós, os funcionários do Auxílio e da Regeneração, vivamos a
depender de alimentos. Todos os Ministérios, inclusive o da União Divina,
não os dispensam, diferindo apenas a feição substancial. Na Comunicação e
no Esclarecimento há enorme dispêndio de frutos. Na Elevação o consumo
de sucos e concentrados não é reduzido, e, na União Divina, os fenômenos de alimentação
atingem o inimaginável.
Meu olhar indagador ia de Lísias para a Senhora Laura, ansioso de explicações imediatas. Sorriam todos da minha natural perplexidade, mas a
mãe de Lísias veio ao encontro dos meus desejos, explicando:
- Nosso irmão talvez ainda ignore que o maior sustentáculo das criaturas é justamente o amor. De quando em quando, recebemos em
"Nosso Lar" grandes comissões de instrutores, que ministram ensinamentos relativos à nutrição espiritual. Todo sistema de alimentação,
nas variadas esferas da vida, tem no amor a base profunda. O alimento físico, mesmo aqui, propriamente considerado, é simples problema de
materialidade transitória, como no caso dos veículos terrestres, necessitados de colaboração da graxa e do óleo. A alma, em si, apenas se
nutre de amor. Quanto mais nos elevarmos no plano evolutivo da Criação,
mais extensamente conheceremos essa verdade. Não lhe parece que o amor divino seja o cibo do Universo?
Tais elucidações confortavam-me sobremaneira. Percebendo-me a satisfação íntima, Lísias interveio, acentuando:
- Tudo se equilibra no amor infinito de Deus, e, quanto mais evolvido o ser criado, mais sutil o processo de alimentação. O verme, no subsolo do
planeta, nutre-se essencialmente de terra. O grande animal colhe na planta
os elementos de manutenção, a exemplo da criança sugando o seio materno. O homem colhe o fruto do vegetal, transforma-o segundo a
exigência do paladar que lhe é próprio, e serve-se dele à mesa do lar. Nós
outros, criaturas desencarnadas, necessitamos de substâncias suculentas,
tendentes à condição fluídica, e o processo será cada vez mais delicado, à
medida que se intensifique a ascensão individual.
- Não esqueçamos, todavia, a questão dos veículos - acrescentou a senhora Laura -, porque, no fundo, o verme, o animal, o homem e nós,
dependemos absolutamente do amor. Todos nos movemos nele e sem ele não teríamos existência.
- É extraordinário! - aduzi, comovido.
- Não se lembra do ensino evangélico do "amai-vos uns aos outros"? -prosseguiu
a mãe de Lísias atenciosa - Jesus não preceituou esses princípios objetivando tão-somente os casos de caridade, nos quais todos
aprenderemos, mais dia menos dia, que a prática do bem constitui simples
dever. Aconselhava-nos, igualmente, a nos alimentarmos uns aos outros, no
campo da fraternidade e da simpatia. O homem encarnado saberá, mais tarde, que a
conversação amiga, o gesto afetuoso, a bondade recíproca, a confiança mútua, a luz da compreensão, o interesse fraternal - patrimônios
que se derivam naturalmente do amor profundo - constituem sólidos alimentos para a vida em si. Reencarnados na Terra, experimentamos
grandes limitações; voltando para cá, entretanto, reconhecemos que toda a
estabilidade da alegria é problema de alimentação puramente espiritual.
Formam-se lares, vilas, cidades e nações em obediência a imperativos tais.
Recordei instintivamente as teorias do sexo, largamente divulgadas no mundo; mas,
adivinhando-me talvez os pensamentos, a senhora Laura sentenciou:
- E ninguém diga que o fenômeno é simplesmente sexual. O sexo é manifestação sagrada desse amor universal e divino, mas é apenas uma
expressão isolada do potencial infinito. Entre os casais mais espiritualizados, o carinho e a confiança, a dedicação e o entendimento
mútuos permanecem muito acima da união física, reduzida, entre eles, a
realização transitória. A permuta magnética é o fator que estabelece ritmo
necessário à manifestação da harmonia. Para que se alimente a ventura, basta a presença
e, às vezes, apenas a compreensão.
Valendo-se da pausa, Judite acrescentou:
- Aprendemos em "Nosso Lar" que a vida terrestre se equilibra no amor, sem que a maior parte dos homens se aperceba. Almas gêmeas,
almas irmãs, almas afins, constituem pares e grupos numerosos. Unindo-se
umas às outras, amparando-se mutuamente, conseguem equilíbrio no plano
de redenção. Quando, porém, faltam companheiros, a criatura menos forte
costuma sucumbir em meio da jornada.
- Como vê, meu amigo - objetou Lísias contente -, ainda aqui é possível relembrar o Evangelho do Cristo. "Nem só de pão vive o homem."
Antes, porém, de se alinharem novas considerações, tiniu a campainha fortemente.
Levantou-se o enfermeiro para atender.
Dois rapazes de fino trato entraram na sala.
- Aqui tem - disse Lísias, dirigindo-se a mim gentilmente - nossos irmãos Polidoro e Estácio, companheiros de serviço no Ministério do
Esclarecimento.
Saudações, abraços, alegria.
Decorridos momentos, a senhora Laura falou sorridente:
- Todos vocês trabalharam muito, hoje. Utilizaram o dia com proveito. Não estraguem o programa afetivo, por nossa causa. Não esqueçam a
excursão ao Campo da Música.
Notando a preocupação de Lísias, advertiu a palavra materna:
- Vai, meu filho. Não faças Lascínia esperar tanto. Nosso irmão ficará
em minha companhia, até que te possa acompanhar nesses entretenimentos.
- Não se incomode por mim - exclamei, instintivamente.
A senhora Laura, porém, esboçou amável sorriso e respondeu
- Não poderei compartilhar das alegrias do Campo, ainda hoje. Temos em casa minha neta convalescente, que voltou da Terra há poucos dias.
Saíram todos, em meio do júbilo geral. A dona da casa, fechando a porta, voltou-se para mim e explicou sorridente:
- Vão em busca do alimento a que nos referíamos. Os laços afetivos, aqui, são mais belos e mais fortes. O amor, meu amigo, é o pão divino das
almas, o pábulo sublime dos corações.
("Nosso
Lar", cap. 18, André Luiz/Chico Xavier, FEB)

Imagem:
"Victorian Fruits" (PSP Tubes)
Formatação exclusiva para o Site Espírita André Luiz:
Lori Marli dos
Santos